Monthly Archives: June 2013

Protests in Brazil and Turkey: not much in common. Try Chile instead

One of the most basic mistakes in the international perception about Brazilian protests is that they allegedly resemble what is happening in Turkey in the last few weeks. Except for Brazilian tear gas a violence used by both police forces, there isn’t any link between them, no matter how hard protesters in South America try to set the agenda by saying they are comparable to the Turkish movement for more democracy. Even prime-minister Erdogan suggested both emerging countries are being targeted by vicious fans of coups — a bait president Dilma Rousseff didn’t bite. And that is because she is more of a democrat than Erdogan is. Anyone who wants a parallel with the situation in Brazil had better take a look at what happened in Chile in 2011.

Most universities in Chile are private and very expensive. Since the departure of dictator Augusto Pinochet, Chile didn’t build any new public universities. Yet, the number of students increased. Their educational infrastructure just wasn’t good enough. That is how a cry for something most Chileans could relate to became a wave of national protests against inequality. Protesters didn’t care about the improvements, they wanted to take it to the next level. Think of Brazil three weeks ago. It was the country where overcrowded transport systems charged more and more from their users.

Brazil’s addiction to foreign repercussions is one of the reasons why many Brazilians tried to associate with Turkey. Having the 7th most important economy on Earth, the two major sports’ events until 2016 and a story of success in the last decades doesn’t seem to be enough to make the country noted abroad. So many protesters chose to associate with Turkey, since the Middle East gets much more attention from the international media. Only very hot-headed protesters would compare Turkey’s frail democracy with Brazil’s sound and lay institutions.

Brazil’s mainstream politics has embraced the protests. Even the very lazy Congressmen had a rush of blood to their veins and passed new laws on corruption, healthcare and education — those three being the main reasons why people took to the streets. President Rousseff urged for pacts to address their complaints and met leaders of peaceful demonstrations. That is nothing like Turkey, where prime-minister Erdogan labelled protesters as criminals. Also, he is the responsible for the police in Turkey, and Brazil’s Rousseff is not.

Another big difference between Turkey and Brazil is the level of political interest held by the protesters themselves. The Turkish seem to be more modern than many Brazilians on the streets — some use the fight against corruption as a platform to impeach democratically elected leaders just because. The Turkish middle class in the protests seems to be more aware of the state of things there. In Brazil, just like in Chile, there is people joining from all walks of life, but a clear majority is of people who are as out of touch with the country as the political system itself.

Sim, eu vou à Copa do Mundo. Ao contrário da Carla que mora nos EUA

This blog is supposed to be English only, but there have been many requests for a translation of my post against the World Cup boycott. So here it is.

É compreensível que parte dos manifestantes tenha ido às ruas contra os gastos envolvendo a Copa do Mundo. E é importante que a mídia internacional tenha todas as informações antes de tratar desse assunto. A primeira questão é com o apoio nacional ao torneio que acontecerá em 2014. E eu digo isso como alguém que IRÁ ao Mundial, apesar de ter críticas sobre a condução do processo.

O vídeo da brasileira Carla Dauden é um dos exemplos da revolta da classe média que domina alguns protestos. Ela vê o Brasil com a famosa “síndrome do cachorro vira-lata”, como se o Brasil não merecesse assumir um papel maior em assuntos globais e deveria ser deixado no seu cantinho. A forma como Carla faz isso é basicamente política velha em fantasia de YouTube. Ela diz que deveremos transformar vitória e responsabilidade em derrota e negligência. Acho que é uma forma muito estúpida de fazer política. Assim como tomar todo o país por aquilo que ela diz não é muito esperto.

Até semanas atrás 77% dos brasileiros apoiavam a Copa do Mundo no Brasil, segundo o Datafolha. O mesmo instituto diz que 77% apoiavam os protestos contra o aumento das tarifas de transporte.

Apenas somando esses dois nota-se que a questão para muitos brasileiros não é receber ou não a Copa do Mundo. O fato de a Copa das Confederações dar algum holofote aos protestos não significa que a maioria dos brasileiros querem abrir mão dela. Não tenho dúvida de que o apoio diminuiu após as manifestações, mas 77% de apoio é um número que serve de referência para as análises.

Não há mérito em dizer que a rejeição é geral por causa de brasileiros ingênuos que vivem nos EUA e falam inglês bem. Ainda menos mérito quando isso é usado para sugerir que o Santo Graal do futebol deve ser levado a outro lugar, já que Carla e aqueles que a viram no YouTube supostamente preferem assim. É uma política de urubus encontrando-se com a política do não. Uma hora sai pela culatra.

A maioria, independentemente do impacto que os protestos venham a ter, não está nas ruas nesse país de quase 200 milhões de habitantes. E isso não está ao alcance de brasileiros que vivem nos EUA e fazem vídeos sobre mudar o Brasil boicotando a Copa do Mundo. Se essa é a proposta de mudança que eles oferecem, eu rejeito.  Não me importa se 3 milhões de pessoas viram o vídeo.

Além disso, desistir da Copa custaria R$ 10 bilhões ao Brasil. O valor fala por si. Carla não pagará por isso com seu Boycott Express. Todos os gastos em estádios levam em conta receitas futuras. O que Carla sugere é que gastemos e abramos mão das receitas. É muita estupidez. Isso sem mencionar que ela confunde a ideia de ter melhor infraestrutura (dois terços dos R$ 30 bilhões esperados em gastos) com investir tudo em arenas. Está errada.

É claro que o Brasil precisa de melhorias na educação e na saúde. É claro que se gastou demais com a Copa do Mundo, e isso merece ser investigado. Mas a quantia investida no torneio é várias vezes menor do que a investida em saúde. Apenas neste ano o Brasil gastará R$ 100 bilhões na área.

Eu escrevi longamente sobre preparativos para o mundial, tanto para a revista FourFourTwo como para o meu projeto final no mestrado. Sei que o legado será menor que o esperado. Mas não gastar nem sempre é o melhor. Comparar a Copa no Brasil com a da Alemanha, onde tudo estava pronto, ou com a da África do Sul, onde pouco foi feito, é muito raso.

O Brasil ganhou o direito de receber o torneio em 2007 e houve consenso da naturalidade da candidatura. É verdade que isso não foi amplamente debatido na sociedade. Mas o processo raramente usa um referendo para se legitimar. O sistema de concessão da sede da Copa é feito em forma de rodízio e os sul-americanos concordaram com o Brasil como sede, assim como os africanos acordaram que seria a África do Sul em 2010.

A questão da Copa ganhou espaço porque os manifestantes queriam a atenção aumentada com a Copa das Confederações — com protestos perto dos estádios em todos os dias de jogos não há mais como negar. Antes de junho, a maior mobilização, que nem tinha tomado as ruas, foi para proibir a venda de bebidas alcóolicas nos estádios. Muitos eram contra a medida que viabiliza algo que Carla já faz nos estádios americanos. É claro que houve outras mobilizações e protestos antes dos atuais, mas o do álcool foi o que mais mexeu com os políticos.

Finalmente, é importante lembrar que protestos nunca foram motivo para mudar a sede da Copa do Mundo. Quando a Colômbia abriu mão de receber o torneio, em 1986, o problema foi basicamente financeiro, ampliado por um terremoto. Se boicotar fosse a solução, Pequim não deveria ter recebido os Jogos em 2008 e a Cidade do México, em 1968, após um massacre relacionado às competições um ano antes.

Quando a violência tomou conta do Reino Unido em 2011, poucos duvidaram do sucesso de Londres 2012. A China manifestou publicamente suas dúvidas sobre a segurança. Os próprios britânicos se questionaram. Mas o tom daqueles que queriam ser construtivos não tocavam as Olimpíadas. Foi aceito que os britânicos lidavam com uma revolta e que isso não escondia seus méritos. O Brasil não é diferente.

É fato que o Brasil ainda não está pronto para a Copa e precisa usar bem os próximos 12 meses. Mas democratas devem ser pacientes com democracias quando elas debatem seu futuro, e não abraçar radicais como se eles representassem a maioria. Radicais como os boicotadores que repetem a política do “não” como se fizessem o bem.

Não, eles não fazem. Eu acolho os críticos de gastos altos e fui um deles — em especial ao falar dos estádios de Brasília, Cuiabá e Manaus. Mas formar uma nação vem de debate, não da postura “deixe o problema para outra pessoa”. Especialmente quando essa postura vem de quem está a milhares de quilômetros do local onde supostamente querem fazer a diferença.